segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Carta de não-amor


Escrevo essa carta em meu quarto, especificamente em minha cama. São 1:29 da manhã, estamos no horário de verão. Faz calor. Eu não queria você aqui agora.

Está aí uma coisa que eu gosto nas madrugadas passadas em claro, a solidão. Já parou pra ouvir o som que a noite faz quando está tudo em silêncio? Uma espécie de eco, um assovio distante. É a voz da solidão. Quero dizer, a voz da solidão boa, porque a solidão ruim grita, um grito que vem de dentro da gente e por isso não adianta tapar os ouvidos. Gosto da solidão assim, assoviando distante, como agora.

Você pelo jeito adormeceu entre uma mensagem e outra. 
-Estou sem sono - você disse.
-Vem pra cá,  eu faço você adormecer no meu colo.
Mentiras. Foram poucas as que você me contou. Engraçado, mas as vezes eu gostaria que você mentisse mais pra mim. Suas verdades doem mas se me perguntarem o que eu mais gosto em você, vou responder sem pensar:
-Ela nunca diz que me ama.

Está aí uma verdade que eu adoro ouvir. Aliás, uma mentira que eu adoro não ouvir. Um "Eu Te Amo" vindo de você me daria náuseas. Para alguém livre como você, o amor não passaria de uma gaiola e eu gosto de te ver voar. Aliás, aqui vai uma declaração de (não)amor:
-Eu não te amo!
Eu poderia gritar isso, sorrindo, como louca. Eu adoro estar com você, adoro seu sorriso, seu cabelo, o brilho dos seus olhos, sua voz e seu jeito de falar, seu beijo, sua cor da pele, seu cheiro. Você me faz bem, me arranca sorrisos e invade os meus sonhos. E eu não te amo! 
A coisa é que amor pra mim sempre veio cheio de muita dor e você só me arranca sorrisos, até mesmo quando age como uma completa canalha. Acho que por isso não te amo, não existe dor quando estou com você.

Ou talvez eu esteja enganada nessa de achando que sofrer é amar demais e se for assim, se houver amor sem dor... 
Eu amo você.
É, eu amo você pra caralho.
E eu quero você aqui agora
(Pra calar os gritos da solidão ruim)

domingo, 6 de outubro de 2013

Todo(a) o(a) amor(dor) do mundo


-Francesca.
- Oi.
- Eu não sei o que te dizer.
- E agora?
E agora?
- Você parecia diferente mas é igual a todo mundo.
- Todo mundo... como assim?
- Todo mundo sempre vai embora. Estou cansada de perder as pessoas.
- Você não precisa me perder.
- Você é quem está me perdendo.
- É. Só eu estou perdendo aqui, pode ter certeza.
- E eu tenho, não há como perder o que nunca foi meu. Você nunca vai ser não é?
- O que?
- Minha. Nunca vai ser minha.
Ela fica em silêncio. Eu arrumo seu cabelo, a mesma mecha sempre insiste em cair sobre os olhos dela. Olhos rasos nos quais eu sempre me afogo.
- Eu gosto de você.
- E corre pros braços de outra?
- Eu não queria ter feito isso.
- Mas fez.
Ela faz muitas coisas sem querer. Como essa coisa de sorrir e fechar os olhos ao mesmo tempo.
- Mas foi sem pensar.
- O problema não é o que você pensa, é o que você sente.
Ela suspira.
- O que você sente? Por mim. 
- Eu gosto de você, se não gostasse não estaria aqui.
- E eu? Eu estaria? Porra Francesca, eu tenho minha droga de orgulho...
- E eu também, Cass!
Ela vira as costas. Se esconde entre os braços. Há lágrimas nos olhos dela. 
- Ei, para com isso...
Ela olha pra mim, tão perto, enxugando as lágrimas - pouco importa se são falsas. 
- Me dá um abraço.
Meu coração volta a bater normalmente, sinto o ar fluir. 
- Mas que droga Francesca, nunca mais faça isso, nunca. 
Ela não me solta. 
- Eu tenho medo de te deixar ir.
- Eu também, deixar você ir e então você fazer o que fez hoje.
-Não vou fazer outra vez, prometo.
-Promete?
-Sim.
-É bom mesmo.
Ela sorri. Eu sorrio.
- Sabe que eu sempre quis conhecer sua mãe?
- Seria engraçado.
- Eu tenho medo do que eu sinto por você.
- Porque?
- É aquilo que eu te disse, sobre o tempo. Hoje você está aqui, mas... e em fevereiro, você vai estar?
- Tem coisas que o tempo não leva. Me faz ser uma dessas coisas.
- Você tem medo?
- O medo faz a gente ter cuidado.
- Eu não queria te perder.
- Então cuida de mim.