sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Cotidiano


Venta muito. Mulheres seguram suas saias esvoaçantes. Sacolinhas serpenteiam no asfalto. Alguém cantarola uma música antiga, melancolia pura, em um tom manso. Pedestres reclamam da dona de casa que lava a varanda, mandando uma enxurrada de água abaixo. O vizinho assiste um seriado antigo, sabe de cor o que vai acontecer em cada santo episódio, mas ri contente - é a única hora do dia em que há tempo pra esse tipo de coisa.

Venta muito. Cass segura o pincel trêmula, sempre preferiu pintar apenas com os dedos. Um borrão vermelho se forma na tela. Seu cachorro passa por ela, abanando o rabo. O passarinho canta de dentro da gaiola - que tem sempre a porta aberta, mas ele se recusa a sair. O celular toca.
- Estou na porta.
- Está brincando né?
- Vem ver.
Assim de repente? Sem aviso? Vir sem avisar e ir da mesma maneira. Cass já vira esse filme antes, Nina - que na última vez que se fora levara com ela um pedaço (ou seria todo ele?) do coração de Cass - costumava fazer isso. Cass se dava ao direito de permitir esse hábito apenas a ela e ninguém mais. Agora essa ligação - não era injustificado o pavor de Cass por falar ao telefone. Foi ver.

Seria perca de tempo e absolutamente inútil comparar a beleza de Nina com a dele, o sorriso, o perfume e qualquer outra maldita coisa que havia em Nina e não se encontrava em ninguém mais. Mas ele se encontrava lá, com aquele olhar faminto, aquelas mãos rudes, os lábios indelicados. Cass forçou um sorriso. Dessa vez ela seria como Nina. Iria embora sem aviso. Sem dor também. Cass aprendera com Nina a ser criatura livre, que não se prende a nada nem a ninguém, não pertence nem a si mesma, só quer sorrir e sorrir e amar, amar, amar e amar. Nina sempre amava, as vezes um, dois dias, raras exceções duravam um pouco mais de tempo. Depois se esvaia. Ela e o amor. Deixando de lembrança apenas seu perfume.
- Não posso com nada que me prenda.

(Escrito antigo que encontrei por aí, na época me pareceu ruim, mas até que agora faz sentido.)


A Felicidade é como um flash

Aparece quando tudo está escuro. Te cega. Acaba.
A felicidade sempre acaba. Tudo sempre acaba.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

I am yours (are you mine?)


Chove. Engraçado como as minhas palavras fluem quando chove. Penso em como seria bom ter você aqui. Você me diz que é mais fácil escrever do que falar. Concordo. Tem umas coisas que eu queria te escrever.

Tua boca
cigarro-bala-bebida
Tua pele
quente de encontro com a minha
Tua tatuagem
eu nunca li (mas acho linda)
Tua voz
rouca e lenta (me arrepia)

Teu cabelo
embaraça nos meus dedos
Teu cigarro
todo tempo sempre acesso 

Teu sorriso - uma estrofe especial
teus olhos se fecham
os lábios se encontram
o raro momento em que não quero beijá-la (pra não interromper)
um sorriso assim devia ser eterno

Teu, tua
Eu sou tua
Nem seu 
Nem sua
Minha
Você é minha (?)