sexta-feira, 10 de junho de 2011

A garota mais bêbada da cidade


– Você já leu Hemingway? – perguntou de súbito ao garçom, que não soube se a pergunta era mesmo pra ele. Ela tinha essa mania de falar sem pensar.
 Quem? 
 Hemingway. O conhaque... qual é mesmo o nome? 
Pensava em voz alta também.

 Fundador. 
Ele sentou-se no banco ao lado dela. Olhou a de perto, assustadoramente de perto. Como se quisesse devorá-la.
 O que?
A proximidade a assustou.
 Fundador, é o nome do conhaque. 
Ele disse afastando-se um pouco. Ela sorriu. 
 Sim! Você já leu Hemingway.
Pensando alto, outra vez. Ele permaneceu em silêncio, devorando-a com os olhos.


– Uma dose de Fundador – ela pediu ao garçom.
– Duas doses de fundador – ele completou – e uma de tristeza.
– O que?
 Seus olhos, estão encharcados. De tristeza.
– Ah...
Ele tinha razão.


Mantiveram-se em silêncio. Os copos esvaziaram-se, uma, três, cinco vezes. Na sexta dose, ela retirou uma carteira de cigarros da bolsa.
 Você fuma? 
 Não fumava. Troquei um vicio por outro.
 Não largou a bebida, evidentemente.
Os olhos dela se voltaram para o chão.
– Ah não, não larguei. É a única coisa que nunca vai me deixar. – disse erguendo o copo -  Foi um vicio maior, mais doloroso.
Ele não disse nada. Esperou que ela falasse.
 Sofia.
 Ah...
Uma mulher. Surpreendeu-o, não muito.


 É difícil ser viciada em alguém, sabe? As pessoas vão embora, assim, do nada. A vontade continua, sempre, mas as pessoas vão.
Ele não era bom em diálogos. Não disse nada.
 Sempre vão embora, sempre...
Ela dizia coisas repetidas, ouvia músicas repetidas, lia livros repetidos. Fazia as mesmas coisas, do mesmo modo, esperando que milagrosamente, algo resolvesse mudar no final. Nunca mudava.


 Me dá um cigarro? – ele pediu.
 Ela tirou um cigarro da carteira e lhe entregou ao mesmo tempo em que acendia o seu.
 Eu sempre espero que tenha um gosto diferente sabe?  O cigarro.
Ela não pensou alto dessa vez. Mas ele continuou sem falar.
 Com ela, sempre parecia a primeira vez. Sempre. As mãos, a fala, o coração. Eu perdia o controle.
 Não acho que seria bom ter um acesso de tosse toda vez que fumasse.
 Seria. Ela estava lá, na primeira vez que fumei. Riu um bocado e eu fiquei sorrindo. Eu sempre sorria ao lado dela. Sempre.
Bêbada, evidentemente bêbada.


 Eu já passei por isso sabia? – ele resolveu arriscar um dialogo.
 É, as pessoas sempre vão embora. Eu disse.
 Sim, elas sempre vão. Eu fui.
 Foi?
 Fui. E vou voltar.
Ele saiu sem se explicar. Deixou uma nota no balcão – o bastante pra pagar a conta dele e dela. Ela continuou ali como se nada tivesse acontecido. Esperando por Sofia.


Era manha quando ela saiu do bar. Sofia não voltou, Sofia nunca voltava. Ela acendeu um cigarro e continuou esperando, ela sempre esperava.

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