sábado, 26 de março de 2011

Por ele e por mim



Neve e fumaça. Trago por trago, floco por floco. Uma espécie de ritual hipnótico. Eu quase adormecia sentado em minha cama. Negando um cobertor quente, ansiando por ele. Ele e seus braços, seu cheiro e amassos. Um som corta o silêncio, silêncio esse ignorando-se o tictaquear do relógio de parede - eu aprendera a ignorar o tempo na crença de que toda e qualquer hora é hora de querê-lo, amá-lo, deseja-lo e outras coisas doces mais. O telefone toca sob minha escrivaninha. Sob ela, além da origem do som-que-cortou-o-silêncio repousa uma maquina de escrever e uma última carta. Para ele é claro – e é claro também que eu jamais teria coragem de entrega-la. Voltando ao telefone que chama, é ele do outro lado da linha. Deixo de ignorar o relógio, tudo muda. Agora é hora de perder a voz, enrubescer e sorrir idiotamente.
- Oi. – Me precipito. Ele faz o mesmo. Quer dizer que ainda existe certa sintonia entre nós?
- Eu só liguei pra... – Ele começa a dizer.
- Tenho que te falar uma coisa. – Eu digo ao mesmo tempo que ele. Maldita sintonia.
- Pode falar. – Ele diz com uma leve risada ao fundo. Sorrio mais ainda – e surpreendo-me ao ver que isso é possível.
- Então, eu não sei bem como dizer isso. Você me conhece e ... – Ele ri do outro lado. Minha voz cessa instantaneamente. Ora, eu não sou capaz de falar ao mesmo tempo em que ele ri tão docemente.
- Pode continuar. – Ele diz. Eu respiro fundo.
- Vou tentar. – Rio levemente – nada que se assemelhe ao seu encanto.
 – Você me conhece e ... e... eu sinto sua falta. – Digo finalmente. Sinto meu coração bater forte. É amor que pulsa.
- Eu sei. – Finalmente ele descobriu o poder que tem sobre mim.
- Sabe? 
- É porque eu também sinto sua falta. – Ou assumiu o poder que tenho sobre ele.
- E..?
- E há sintonia entre nós. 
- Logo o que eu sinto, você também sente. – Falamos ao mesmo tempo. Emudeço por alguns segundos. 
- Como você...
- Eu só liguei pra dizer que estive aí hoje de manhã. A luz da cozinha estava acesa, eu apaguei. Havia uma carta na escrivaninha, me desculpe se ela está borrada de lágrimas, eu a li. E deixei uma coisa na máquina de escrever, outra carta, aliás. Ela diz tudo o que eu preciso te dizer. É isso, preciso desligar, está frio aqui. Espero que você não se importe se eu aparecer por aí algum dia desses.
- Eu amo você. – Era a única coisa que minha boca poderia expressar naquele momento.
- Ah, você já leu a carta. – Ele concluiu e desligou.

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