domingo, 23 de janeiro de 2011

Sobre uma noite que valeu a pena



– Andou bebendo mocinha? – Ele perguntou fazendo-a desviar seu olhar dos ladrilhos do passeio.

Ela sorriu e tentou fixar os olhos nele. Riu sozinha por não conseguir.

– Acho que isso é um sim. – Ele concluiu e mesmo bêbada, ela notou que ele tinha o mesmo tom de voz cheio de segundas intenções que ela odiava.
 
Ela soltou uma risada de desprezo e tirou um maço de cigarros da bolsa com dificuldade. Ele rapidamente retirou um isqueiro do bolso do casaco e acendeu-o.

– Quer que ... – Ela levou o cigarro até a chama antes que ele fizesse a oferta.

– Muito obrigada.
Ela tragou e uma cortina de fumaça se formou entre os dois.

– O que faz aqui, sozinha? – Ele insistiu, aproximando-se dela e notando que tinha pernas muito bonitas, mal escondidas pelos shorts curtos.

– O mesmo que você, querido. – Ela sorriu crente de que seria o bastante para expulsa-lo dali.

– E o que acha que eu estou fazendo aqui?

– Esperando por alguém, qualquer uma que faça valer sua noite.
 
– Acho que você pode fazer valer minha noite.   – Ele arriscou. Em vão.

– Eu acho que não.  – Ela perguntou tentando encontrar mais cerveja na garrafa que segurava.Vazia. 
A garrafa e a garota.

– Olhe pra mim, caindo de bêbada, fedendo a cigarro vagabundo e eu nem sei direito o que fiz lá dentro, quem é o cara que me agarrou e – Ela parecia ter dificuldades pra organizar as palavras –  esqueci o caminho de casa. – Completou soltando uma risada triste.

–  Esqueceu de acrescentar que está falando com um completo estranho. – Ele comentou sorrindo.

Ela riu.
 
– Ainda assim, acho que você pode animar minha noite,

– É com isso que você se preocupa não é? Sua noite. Se tiver alguma historia pra contar pra seus amigos, não vai precisar se preocupar com a garota que passou o dia todo ao lado do telefone, esperando ouvir sua voz. Não vai nem se importar em lembrar o nome dela.

– O que diabos você está ... – Ela não parou de falar.

– Você não se preocupa em fazer a noite de ninguém boa, não é? Vai chegar uma hora em que você vai perceber que não foi importante pra ninguém e que a única lembrança que vai restar, é de ter sido um safado maldito.
 
– Cale a boca! – Ele berrou e virou as costas, andando sem saber pra onde.

Precisava se esconder dela e das verdades que ela acabara de libertar. Era como se ela tivesse cuspido uma chuva daquelas florezinhas de pétalas leves como algodão, que se espalham com o vento e sempre acabam deixando um pedacinho em você, porque você não tem controle sobre elas. A não ser que fosse o vento. Ele não era. Era um safado maldito.

Parou de andar e respirou fundo, virando-se de volta pra porta da boate. Ela continuava lá, buscando cerveja em uma garrafa vazia e se escondendo em meio a uma cortina de fumaça.  Ele aproximou-se dela e tocou seu ombro magro, devagar.

– Obrigado.

Ela desviou seus olhos lentamente, sem entender.

– Por...?
 
– Por fazer minha noite valer a pena.

– Ah! – Ela exclamou e riu. – Pode me levar pra casa? – Perguntou surpreendendo-o.

– Tudo bem.

– Mas – ela olhou em volta – acho que não sei mais onde é.

Ele riu e ela percebeu o quão encantador ele era.

Terminaram a noite ali, sentados na calçada. Ele comprou-lhe uma garrafa de cerveja e o vazio dentro dela se preencheu. Nunca mais se viram depois daquela noite. Mas valeu a pena.

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