quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Homônimos


     Parecia um pequeno pastor aquela coisiquinha vestida com um terno três vezes maior que ele, herdado de seu falecido primo da cidade grande, carregando nas mãozinhas sujas uma caixa de sapatos encapada com retalhos para parecer uma mala. Esperto que só ele, Fernando Antonio Nogueira Pessoa – esse nome eu explico logo – tivera uma idéia que ninguém jamais imaginava que ele poderia ter.
 Era o tipo de moleque sujinho, de joelhos ralados e galo na cabeça, que vivia andando pela cidade a toa, soltando traques e mexendo no barro. Morava numa pequena cidade de Minas Gerais, daquelas que fazem questão de honrar o estereotipo de cidadezinha do interior aonde todo mundo sabe da vida de todo mundo e as galinhas andam no meio das ruas de terra. De vez em quando até aparecia uma vaca magra, carrapatenta, no meio da calçada pra comer as tão estimadas rosas do jardim de Dona Lurdes e ela saia gritando, ameaçando a tal com uma panelinha de água fervente. A vaca dava meia volta e ia comer o mato do terreno ao lado, tranqüila.

– A Senhora quer comprar um livro Dona Isaura? – ele perguntava mantendo os olhinhos brilhantes bem abertos. 
– O que é que você tem aí Toninho?
– São livros de poesia, escritos por mim, Fernando Pessoa! – ele respondia orgulhoso .
– Para de mentir menino, Fernando Pessoa já morreu.
         – Claro que não Dona Isaura, olhe aqui a prova – ele tirava a certidão de nascimento encardida e mal conservada do bolso da bermuda velha – Sou eu!
– E não é que é mesmo? – ela riu e pegou o caderninho brochura das mãos do menino.
 
 Toninho copiava cada virgula do único livro que tinha em sua casa a mão, em lápis de cor preto, com sua letra enorme que tomava uma pagina inteira a cada frase em pequenos caderninhos velhos comprados na mercearia por uns poucos centavos e depois batia de porta em porta, dizendo ter ele mesmo escrito os belos versos. Não mentia, não totalmente. Os versos eram mesmo de Fernando Pessoa.
  Do livro ele não sabia o titulo porque a capa se fora quando grávida, sua mãe se mudara para a pequena cidade, mas o autor era Fernando Pessoa, nascido em Lisboa em mil oitocentos e poucos. Era o que dizia a biografia na ultima folha.

– Não quero comprar não meu bem – respondeu a Senhora e Toninho sorriu.
  Era a sua vez de mostrar o que sabia.
– Minha mãe é professora igual a Senhora era, antes de aposentar sabe? E ela ia se orgulhar muito de mim se eu vendesse meus escrito pra alguém sábio como a senhora.
– Me dá um então menino, só pra ela se orgulhar de você.
  E Toninho saia feliz em direção a outra casinha.

– Quem é? – perguntou uma vozinha lá de dentro.
– È Fernando Pessoa, escritor e vendedor de livros – ele respondeu e logo a portinha se abriu revelando uma carinha enrugada e magra.
– Não quero comprar nada, meu filho. Livro não serve pra nada.
– Claro que serve Dona Maria.
– Você vive de livro meu bem? Come livro? Veste livro? Mora no livro?
– Não Senhora, mas... – ele pensou se deveria contar sua historia e achou melhor não.

  Seu pai dissera exatamente a mesma coisa quando ele tirara o livro do latão de lixo em prantos e fizera um discurso sobre a importância da leitura – herdara essa paixão pelos livros - ou no caso, pelo livro - da mãe. E ele provara que podia “viver de livro”.

– Então não serve pra nada – concluiu a velha.
– Minha mãe é cozinheira, me compra um livro e eu prometo dar a metade do dinheiro pra ela fazer um bolo de fubá pra Senhora.
– Se é assim... – e pagou uns trocados a Toninho.
 
Morreu esperando o tal bolo de fubá. No dia do enterro, Toninho pediu a mãe – que não era cozinheira coisa nenhuma, nem professora – pra fazer um bolo de fubá, em homenagem a velha.

– Você devia era jogar o bolo na cova – comentou Beto - Francis Albert Sinatra – irmão de Toninho.
– E desperdiçar comida?
– Tem razão – concluiu pegando um pedaço de bolo da forma e atraindo um olhar reprovador de Toninho – È pela Dona Maria, oras! – e se empanturrou de bolo de fubá.

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