domingo, 9 de janeiro de 2011

Flores de Maio

Cabelos dourados cortavam a multidão que atravessava a rua. Ela andava rápido, quase corria. Destacava-se por isso e apenas por isso já que não era extraordinariamente bonita ou feia. Tinha olhos castanhos comuns, cabelos loiros comuns e corpo magro comum.
Ah, mas para ele, ela parecia ser a única naquela avenida imensa. Seus olhos – e também seus pés – a seguiam ágeis.

– Ellen! – ele chamou, mas a mulher nem sequer deu atenção.
Existiam tantas Ellen’s pelo mundo e era bem mais fácil acreditar que não era com ela e seguir em frente.
– Ellen! – insistiu, agora a alguns poucos metros dela.
Talvez não fosse ela.
Só havia uma maneira de ter certeza:
– May! – ela finalmente se virou e estancou na calçada ao deparar-se com a face dele – ele sim, era extraordinariamente bonito.
– Will? – ela perguntou ao rapaz agora parado à sua frente.
Era ele. Somente ele a chamaria assim.
– May!May Flower! – ele exclamou já tendo certeza de que era ela.
Somente ela atenderia a tal chamado.
– Por onde você andou? – ele perguntou.
Sabe o quanto eu procurei por você?O quanto sua mãe sofreu até finalmente morrer de saudades?
– Pelo mundo.Eu sou do mundo Will. Eu sou, o mundo! – ela enfatizou as duas ultimas palavras, fechando os olhos ao pronuncia-las.


Ah! Definitivamente era ela. Mantinha aquele ar alucinado e os cabelos levemente desgrenhados. Permanecia louca, afinal não há maior louco do que aquele que acredita nas próprias mentiras a ponto de torna-las reais.
– O que faz por aqui? – ela perguntou.
– Vim a uma palestra, me formei em literatura.
E aproveitei para te procurar, assim como tenho feito todos os dias de minha vida.
– Ah! – ela suspirou não muito empolgada.


Ele gostaria de dizer tantas coisas a May Flower.
– As vezes minha querida, eu acho que tudo não passa de um sonho ruim e que logo vou acordar, com você tacando pedras em minha janela, me chamando para o jardim.Para o mundo.
“ Vem Will! Vem colher as minhas flores antes que maio se acabe. E o mundo inteiro é o nosso jardim! ” ela dizia.


– E você, o que faz por aqui? – foi a única coisa que ele conseguiu dizer.
– Ah, você sabe. Um jardineiro tem que cuidar de seu jardim.
– Ah... – ele não tinha palavras.


Os lábios finos de May se mexeram, mas não houve som algum. O sino da igreja as suas costas tocou tilintando irritante.Depois, ela apenas sorriu e se foi.
Era típico dela partir sem se despedir. Era típico dele esperar por ela.
Ah, se os fieis ao menos uma vez na vida adiassem sua missa, Will saberia que daquela vez ela se despedira dele.

–  Eu tenho que ir Will, colher as flores que você não colheu. O jardim também é seu.

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