sábado, 1 de janeiro de 2011

Branco e vermelho


Quatro paredes. Uma cela de azulejos brancos. Uma mancha vermelha no chão. Sangue. Sangue vermelho em azulejo branco. Um detalhe. Menina. Menina fria em azulejo frio. Um único encaixe aonde tudo parece estar fora do lugar.

Ora, ela não deveria ouvir todas aquelas vozes lhe dizendo o que fazer. Ela não deveria obedecer. Ela não deveria falar com elas. Não deveria, mas olhe lá. Olhe para aquela pequena criatura indefesa e bela. As vozes se tornaram seu cérebro agora e coordenam cada misero movimento de seu corpo magro. Um fantoche. È isso o que ela é agora.

Como pudera? Ela que se dizia tão inteligente, tão esperta, esquecer de diferenciar sonhos de realidade? Os sonhos ela diferencia. Os pesadelos não mais. Então ela acorda todas as noites e seus gritos ecoam pelo quarto. E o suor vasa pelos seus poros e escorre pelo seu rosto. Ninguém escuta. Ninguém vê. Resta a ela, somente uma espera desesperada pelo nascer do sol no horizonte.

O sorriso assimétrico permanece em seu rosto. A felicidade ainda enche seu peito. Ela respira alucinada, sedenta por vida. Ainda afasta-se todas as noites de casa, pela porta da cozinha e caminha pelo quintal apreciando o céu escuro. Seus olhos buscam a figura da lua lá em cima. Gosta de ter a visão ofuscada por todo aquele brilho prateado. Gosta da colisão da luz com a treva. Gosta da noite.Tanto, que chegou a denominar-se como felina. Não só pela noite, mas pelo amor. Seu amor é felino. Seletivo e oportunista. Carente de uma razão para existir.

Levanta-se e limpa o vermelho do chão. O cheiro de sangue invade suas narinas. Uma pequena gota é o que resta na imensidão branca. Um ultimo vestígio, uma única lembrança daquela noite em que ela não saiu pra ver a lua no céu. Ela deixa a toalha suja de sangue na pia e gira a maçaneta prateada. Em seu pulso finos traços horizontais avermelhados denunciam o que ela faz todas as noites no banheiro. Todas as noites, menos aquela. Já havia alguém lá dentro. Alguém munido de um bisturi e um bilhete de despedida.

Eu te amo filha. Me desculpe por isso. Todas as forças que me restaram estão com você agora. Você vai viver .

E ela viveu, porém não mais atreveu-se a olhar para a lua no céu. Nunca mais fitou seu brilho prateado.O branco dos azulejos perturbando sua mente bastava para ofuscar sua visão. Não era tão bonito quanto a lua, mas era o bastante para lembrá-la da noite em que ela só enxergou branco e vermelho.

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