quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Há uma tempestade dentro de mim.



Plim, plim, plim, plim. Gente passando na rua correndo, fugindo. Ansiando por suas casas, suas camas e seus telhados. Tem quem não se importe e ande sem pressa, ignorando a roupa molhada, o frio, os sapatos encharcados, as poças d’agua e os carros que passam espirrando água pra todo lado. Sinceramente, eu gosto de chuva. Mas gosto acima de tudo, do barulho da chuva. O vento, os trovões, as gotas caindo no telhado e batendo na janela. Plim, plim, plim...

Solidão combina com chuva, ou chuva combina com solidão? Tanto faz, sei que gosto de estar sozinha aqui, somente eu e minhas palavras. Eu poderia ficar assim para sempre, imagino. E os segundos tornar-se-iam virgulas, os minutos frases e as horas parágrafos. E eu preencheria tudo com palavras. Livros, revistas, jornais, listas telefônicas, mapas e documentos. Até que tudo se esgotasse e eu passasse a escrever nas paredes.

O telefone toca. Ao contrário da chuva, barulho de telefone tocando não me agrada. Meu coração dispara e o som fica ecoando na minha cabeça.  E depois... o vazio. Tutututututu. Acho que o amor é parecido com um telefone tocando – e não estranhe a comparação –  no início, corações disparados, e depois só o que resta é o vazio, a solidão. No fim, não há mais alguém do outro lado esperando por você. Não há nada.

Tututututu. Como um disco repetido, o som fica tocando na minha mente. Espero que algum dia o som mude, que haja alguma voz do outro lado, que haja ao menos  alguém do outro lado. Por enquanto não há nenhuma voz, só o barulho da chuva – que cai mais devagar agora – e o vazio ecoando na minha mente.

Plim-plim-plim-tu-tu-tu...

Um breve silêncio e eu reparo: a chuva parou.


sábado, 3 de setembro de 2011

Enquanto o amor não chega


- Me diz como voltar?
- Pra mim?
- Não, pra ela.
- Ah...
- Desculpa.
- Não, está tudo bem. Eu só achei que você seria uma boa pessoa pra preencher esse vazio que deixou.
- Que eu deixei?
- Não. Que ela deixou.
- ...
- É estranho isso não é? Essa coisa de sempre ter que haver outras pessoas. Porque não pode simplesmente ser só eu e você, você e ela, eu e ela?
- Não sei.
- Alguém tem que sofrer, alguém tem que ficar de fora. Acho que é por isso.
- Acho que não.
- É sim. E engraçado, esse alguém acaba sendo sempre eu.
- Me desculpa.
- Não. Tudo bem. Eu já me acostumei.
- Tudo bem mesmo?
- Não. Nunca está. Mas eu já me acostumei.

Todo carnaval tem seu fim e já passou meu carnaval.



quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Eu disse que não ia passar


Eu lutei por um tempo, tentando não escrever mais nada sobre você. Eu tinha me prometido que não escreveria. Eu tinha jurado que não pensaria, nem sentiria mais sua falta.

Mas é que hoje eu sonhei com você.

E você estava lá, tão linda, sorridente e desajuizada com sempre esteve. E eu que pensava ter te esquecido, me peguei um milhão de vezes, o dia todo pra ser sincera, recordando o sonho e seu rosto nele. Me doeu muito saber que dessa vez, eu te perdi, pra nunca mais ter de volta. Você se foi pra nunca mais voltar.

E eu que reclamava das suas idas e vindas sem aviso, hoje daria tudo pra te ver voltar e bater na minha porta sem que eu esperasse. Acho que eu daria tudo, absolutamente tudo, só pra te ver voltar. Sentir aquele silencio constrangedor que sempre ficava quando a gente se encontrava, eu reclamava, mas aproveitava esse tempo pra olhar seus olhos, seu rosto, sentir seu cheiro de perto - eu me recordo de seu perfume até hoje e senti-lo me dispara o coração - e ouvir sua respiração e os sons dos seus passos ao meu lado.

É minha querida, eu não te esqueci, nunca vou esquecer, mas você nunca se lembrou. Eu não queria, não queria mesmo sentir sua falta ou sorrir por ver a sua droga de sorriso-mais-lindo-do-mundo em um sonho, mas eu sinto - e sinto tanto - a sua falta, e seu sorriso... Ah o seu sorriso, sempre vai me fazer sorrir.

Tudo isso dói, de uma maneira que eu nunca pude imaginar que doeria. Dói tanto que eu tentei amenizar, colocar alguém em seu lugar, uma outra. Não funcionou, não cabe mais ninguém aqui dentro de mim. O amor  (a dor) ocupa todo, amor (dor) que não passa e não vai passar. Passou você, foi e me deixou aqui.
E dói...

Um pedido final:
Volta.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Um delírio de amor

Eu estou aqui, por você e só por você. Eu me importo com o que você sente. 
Airosa. Nenúfares. (Elas me fazem sorrir, as palavras, espero que contigo tenham o mesmo efeito.)
 E que se foda o resto.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

(Re)começar


- Belos olhos.
- É, são verdes.
- Seu nome?
- Marjorie, mas eu odeio, prefiro Meg.
- Vem sempre aqui?
- Não. Não moro na cidade.
- É de onde?
- De onde eu quiser ser e se eu gostar de você, posso ser de um lugar que você goste.
- Gosto da lua.
- Então, eu vim de lá.
- Sei. De onde é? Mesmo.
- De onde eu quiser, já disse. Não importa muito de onde eu venho, se não sei pra onde vou.
- Acho que você tem razão. Seu nome é mesmo Marj... Meg?
- Hoje? Hoje é. Se me perguntasse ontem, eu diria Julia e se me perguntar amanhã... eu estive pensando em Kate.
- E o que você faz?
- No momento, eu procuro alguém, alguém que me traga de volta pra vida.
- Só hoje?
- Não. Isso eu faço desde que me entendo por gente, todos dias, seja qualquer for meu nome e minha origem, sempre estive nessa busca.
- E eu posso te acompanhar?
- Não vou pode te ajudar, não posso trazer ninguém de volta pra vida.
- Só você mesma.
- ....
- E o que você quer da vida?
- Saber.
- O que?
- Como é estar do lado de dentro do amor. Eu sempre estive do lado de fora, pelo menos do amor das pessoas. É como se eu não fosse bem vinda no coração delas.
- Isso dói.
- E é errado. Não entendo porque elas tomam conta de mim e me deixam do lado de fora de seus corações. Custa muito elas me deixarem entrar? Eu sempre tentei tanto... Já fui tanta gente, e nunca, como Meg, Julia ou Kate, nunca me deixaram entrar.
- Tem um problema com você.
- Eu sei que tem. Deve mesmo ter. Você foi a primeira pessoa a dizer isso, mas tem razão.
- É um problema bom.
- Isso existe?
- Eu acho. Você é doce demais, não parece, mas eu percebo isso. E tem um medo enorme nos seus olhos, de ser quem você é e não ser aceita. Talvez as pessoas percebam isso, talvez elas não queiram magoar você.
- Talvez elas sejam realmente más, somente más. Sejam essas coisas, essas máquinas de iludir e magoar.
- É. Talvez.
- Você já esteve do lado de dentro do amor?
- Nunca. Deve ser boa a sensação.
- Deve. Ao menos melhor do que a sensação de estar do lado de fora. Porque essa, é terrível.
- Talvez não seja grande coisa.
- Não sei. Nunca estive, nem você. Um dia a gente descobre.
- É.
- Mudando de assunto, sabe de uma coisa? 
- Hm.
- Meu nome é mesmo Marjo... Meg. Não menti pra você, nem um segundo nessa conversa. Nem sequer um segundo.

Just people can save people, but just you can save yourself.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Um breve dialogo sobre (o amor) a dor



Ela: Eu não costumo chorar, sabia?
Ele: Hum...
(Silêncio, algumas lágrimas.)
Ela: Eu só queria saber como é estar do outro lado, sabe? Queria ser o motivo do sorriso, o alvo da espera, o pensamento antes de dormir. Só isso.
(Silêncio novamente. Muitas lágrimas)
Ela: Dói, infinitamente. Toma conta de você, e você não consegue evitar. Está doendo agora, doendo muito.
Ele: O amor?
Ela: O vazio. O vazio que o amor deixa quando vai embora. Essa coisa, não sei o que é.
Ele: Solidão?
Ela: Não, mas tem a ver com ela. Quando você ama sozinho, o amor costuma deixar cicatrizes.
Ele: Cicatrizes as vezes doem.
Ela: Não. Machucados doem, aqueles que não cicatrizam e ficam lá, doendo e doendo. Amar sozinho machuca e não cicatriza.
(Eles se olham, ele sente algo, algo doendo dentro dele)
Ele: Dói mesmo.
Ela: É.
Ele: Acho melhor se acostumar. Dói desde que... bem, só dói e parece que não pretende melhorar.
Ela: Antes dor do que vazio.
Ele: É. Eu preenchi meu vazio.
Ela: Como?
Ele: Com mais dor.
Ela: Ah...
Ele: Antes dor do que vazio.
Ela: É.
(Sorriram. Continuou doendo. Não cicatrizou.)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A garota mais bêbada da cidade


– Você já leu Hemingway? – perguntou de súbito ao garçom, que não soube se a pergunta era mesmo pra ele. Ela tinha essa mania de falar sem pensar.
 Quem? 
 Hemingway. O conhaque... qual é mesmo o nome? 
Pensava em voz alta também.

 Fundador. 
Ele sentou-se no banco ao lado dela. Olhou a de perto, assustadoramente de perto. Como se quisesse devorá-la.
 O que?
A proximidade a assustou.
 Fundador, é o nome do conhaque. 
Ele disse afastando-se um pouco. Ela sorriu. 
 Sim! Você já leu Hemingway.
Pensando alto, outra vez. Ele permaneceu em silêncio, devorando-a com os olhos.


– Uma dose de Fundador – ela pediu ao garçom.
– Duas doses de fundador – ele completou – e uma de tristeza.
– O que?
 Seus olhos, estão encharcados. De tristeza.
– Ah...
Ele tinha razão.


Mantiveram-se em silêncio. Os copos esvaziaram-se, uma, três, cinco vezes. Na sexta dose, ela retirou uma carteira de cigarros da bolsa.
 Você fuma? 
 Não fumava. Troquei um vicio por outro.
 Não largou a bebida, evidentemente.
Os olhos dela se voltaram para o chão.
– Ah não, não larguei. É a única coisa que nunca vai me deixar. – disse erguendo o copo -  Foi um vicio maior, mais doloroso.
Ele não disse nada. Esperou que ela falasse.
 Sofia.
 Ah...
Uma mulher. Surpreendeu-o, não muito.


 É difícil ser viciada em alguém, sabe? As pessoas vão embora, assim, do nada. A vontade continua, sempre, mas as pessoas vão.
Ele não era bom em diálogos. Não disse nada.
 Sempre vão embora, sempre...
Ela dizia coisas repetidas, ouvia músicas repetidas, lia livros repetidos. Fazia as mesmas coisas, do mesmo modo, esperando que milagrosamente, algo resolvesse mudar no final. Nunca mudava.


 Me dá um cigarro? – ele pediu.
 Ela tirou um cigarro da carteira e lhe entregou ao mesmo tempo em que acendia o seu.
 Eu sempre espero que tenha um gosto diferente sabe?  O cigarro.
Ela não pensou alto dessa vez. Mas ele continuou sem falar.
 Com ela, sempre parecia a primeira vez. Sempre. As mãos, a fala, o coração. Eu perdia o controle.
 Não acho que seria bom ter um acesso de tosse toda vez que fumasse.
 Seria. Ela estava lá, na primeira vez que fumei. Riu um bocado e eu fiquei sorrindo. Eu sempre sorria ao lado dela. Sempre.
Bêbada, evidentemente bêbada.


 Eu já passei por isso sabia? – ele resolveu arriscar um dialogo.
 É, as pessoas sempre vão embora. Eu disse.
 Sim, elas sempre vão. Eu fui.
 Foi?
 Fui. E vou voltar.
Ele saiu sem se explicar. Deixou uma nota no balcão – o bastante pra pagar a conta dele e dela. Ela continuou ali como se nada tivesse acontecido. Esperando por Sofia.


Era manha quando ela saiu do bar. Sofia não voltou, Sofia nunca voltava. Ela acendeu um cigarro e continuou esperando, ela sempre esperava.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Inexplicável e irracional


Sexta feira, 22 de abril de 2011

Escrevo-te porque hoje eu olhei um milhão de vezes para a porta esperando que você estivesse lá, do outro lado fazendo o mesmo. Esperei a campainha cortando o silêncio e até o som do liquidificador me pareceu idêntico ao trim trim que sempre te anuncia. Bobeira, eu sei, mas sou cheia dessas coisas.

Escrevo-te porque a pouco lembrei-me que hoje é sexta(que-parece-sábado)-feira e você bem que poderia ter vindo me ver só pra fazer-me sorrir um pouquinho e depois partir como você sempre faz.


Escrevo-te porque aquela vodka tinha gosto de sua-boca-quando-te-beijei-naquela-noite e por isso eu tive vontade de bebe-la até te ter de volta (e tudo isso é, entenda, porque você e o álcool me causam efeitos parecidos: amnésia, visão embaçada, perca do equilíbrio, da voz e do fôlego e é claro, dependência). 



Escrevo-te porque você sempre vai, nem sempre volta e eu sempre espero imaginando aonde você estará quando não está comigo. Com outros, ou outras... Não sei bem, é porque você tem isso de querer ser sempre livre e tem passarinho que a gente solta e não volta nunca mais porque gosta demais da liberdade. Tenho tanto medo disso, de te deixar ir e nunca mais te ver voltar, que me dá vontade de te agarrar pra nunca mais soltar. Gosto de te enxergar como passarinho, sempre gostei. Me enxerga como gaiola se quiser, mas por favor, não quero te prender nunca na vida. Fica se quiser, só vem de vez em quando porque sabe que vai encontrar a porta aberta no caso de querer entrar.



Quarta-feira, 27 de abril de 2011

Escrevo-te porque hoje mais do que nunca – e olhe só, já estou até soltando bordões de apresentador de programa de domingo a tarde – eu precisava encontrar um jeito de te fazer parecer um tanto mais real, porque você me parece cada vez mais imaginaria. É que a cada segundo, minuto, hora e dia que passa, você me dói mais e eu tenho esse costume de fingir que a dor é coisa da minha imaginação. Não funciona, mas eu insisto.


Escrevo-te porque precisava saber ao certo o que diabos eu sinto por você depois desse tempo todo em que você foi e voltou sem nunca avisar quando, e se ia voltar. A coisa é que te amo cada dia mais e só vou parar quando não tiver mais espaço aqui dentro de mim, que já estou cheia desse amor e de tudo o que ele trouxe consigo. Trouxe sorrisos, um milhão deles, e olhos brilhantes. Trouxe lágrimas que eu nunca esperei chorar e esse vazio que me acompanha desde sempre mas não sei porque, me parece mil vezes maior quando você não está por perto – isso é, quase sempre.


Escrevo-te porque amo-te, quero-te, desejo-te, preciso-te, vejo-te e quantos mais “te” forem necessários.

Escrevo-te porque insisto em atrever-me a procurar explicação e razão para o inexplicável e irracional. O amor.

E por favor, volta. E não vai nunca mais, porque veja bem, se doía muito na sexta, hoje dói uma dor maior e amanhã vai doer mais ainda, e hora ou outra você vai olhar pra mim e perceber que eu sou só dor. Inexplicável e irracional. Dor, amor, tanto faz. Volta.

sábado, 26 de março de 2011

Por ele e por mim



Neve e fumaça. Trago por trago, floco por floco. Uma espécie de ritual hipnótico. Eu quase adormecia sentado em minha cama. Negando um cobertor quente, ansiando por ele. Ele e seus braços, seu cheiro e amassos. Um som corta o silêncio, silêncio esse ignorando-se o tictaquear do relógio de parede - eu aprendera a ignorar o tempo na crença de que toda e qualquer hora é hora de querê-lo, amá-lo, deseja-lo e outras coisas doces mais. O telefone toca sob minha escrivaninha. Sob ela, além da origem do som-que-cortou-o-silêncio repousa uma maquina de escrever e uma última carta. Para ele é claro – e é claro também que eu jamais teria coragem de entrega-la. Voltando ao telefone que chama, é ele do outro lado da linha. Deixo de ignorar o relógio, tudo muda. Agora é hora de perder a voz, enrubescer e sorrir idiotamente.
- Oi. – Me precipito. Ele faz o mesmo. Quer dizer que ainda existe certa sintonia entre nós?
- Eu só liguei pra... – Ele começa a dizer.
- Tenho que te falar uma coisa. – Eu digo ao mesmo tempo que ele. Maldita sintonia.
- Pode falar. – Ele diz com uma leve risada ao fundo. Sorrio mais ainda – e surpreendo-me ao ver que isso é possível.
- Então, eu não sei bem como dizer isso. Você me conhece e ... – Ele ri do outro lado. Minha voz cessa instantaneamente. Ora, eu não sou capaz de falar ao mesmo tempo em que ele ri tão docemente.
- Pode continuar. – Ele diz. Eu respiro fundo.
- Vou tentar. – Rio levemente – nada que se assemelhe ao seu encanto.
 – Você me conhece e ... e... eu sinto sua falta. – Digo finalmente. Sinto meu coração bater forte. É amor que pulsa.
- Eu sei. – Finalmente ele descobriu o poder que tem sobre mim.
- Sabe? 
- É porque eu também sinto sua falta. – Ou assumiu o poder que tenho sobre ele.
- E..?
- E há sintonia entre nós. 
- Logo o que eu sinto, você também sente. – Falamos ao mesmo tempo. Emudeço por alguns segundos. 
- Como você...
- Eu só liguei pra dizer que estive aí hoje de manhã. A luz da cozinha estava acesa, eu apaguei. Havia uma carta na escrivaninha, me desculpe se ela está borrada de lágrimas, eu a li. E deixei uma coisa na máquina de escrever, outra carta, aliás. Ela diz tudo o que eu preciso te dizer. É isso, preciso desligar, está frio aqui. Espero que você não se importe se eu aparecer por aí algum dia desses.
- Eu amo você. – Era a única coisa que minha boca poderia expressar naquele momento.
- Ah, você já leu a carta. – Ele concluiu e desligou.

terça-feira, 1 de março de 2011

Das palavras que nunca foram ditas


Você sabe, eu vejo você, sempre. Por vezes é a única coisa que me faz querer manter os olhos abertos. As vezes (sempre) você não retribui e então eu te espero. Você é minha espera mais longa. A mais paciente também. Talvez, a mais dolorosa. Dolorosa porque é eterna e eu sei disso. Eu sei e por vezes, eu desejei ser ignorante e não saber. Desejei aquela inocência toda de quem nunca perde a esperança e acredita que hora ou outra, aqui estará você, me sorrindo e dizendo que me ama. Eu te amo. Essas palavras nunca foram ditas por você – ao menos, não referindo-se a mim - e no fim, a errada aqui sou eu. Por ter acreditado em palavras nunca ditas. Sou eu a errada, mesmo que eu prefira colocar a culpa de tudo nesses teus malditos olhos cor de conhaque-mel-âmbar que teimam em fugir dos meus verde-mel e no teu sorriso tímido. A culpa não é sua, de fato você não podia evitar essa coisa de ser tão docemente encantadora mesmo sem querer. Pode ser que nem eu pudesse evitar tudo isso, mas já não importa agora. Podendo ou não, ninguém evitou nada e cá estou eu, sorrindo no fundo do poço porque ouvi tua voz e vi teu sorriso, tão leve que pareceria imperceptível pra quem não passou dias e dias esperando por ele. Ah, tem isso também. Não há como evitar, teu sorriso sempre vai me fazer sorrir e o mesmo mel que há nos teus olhos há nos meus.

Mas você nunca olha, você nunca vem, você nunca disse. “Eu te amo”.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

À menina dos olhos


– Você devia ter me falado antes.
– Acho que não. Eu não devia.
– E iria me esconder isso até quando?
– Até nunca. Você sempre soube.
– É. Acho que sim.
– Como?
– O que?
– Como você soube?
– Os seus olhos, eles falam enquanto sua boca silencia.
– Só isso?
– Eles brilham também. Principalmente quando Ela está por perto.
– E você fica reparando nessas coisas?
– Fico sim. Acho que é normal não é?
– Talvez sim, talvez não. De que jeito você olha pra mim?
– Ora, com meus olhos.
– Não! Com que olhos? Olhos curiosos, interessados, entediados...?
(Silêncio)
– E então?
– Olhos brilhantes.
– Brilhantes como?
– Como os seus, quando Ela...
– Ah! Acho que temos um problema aqui.
– Talvez sim, talvez não. De que jeito você olha pra mim?
(Silêncio novamente)
– Eu não olho.
(Lágrimas)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pra que você entenda o que eu também não entendo



    I
                              – Espera, pode me fazer um favor?                         
– O que é?
– Ficar aí, me deixar te olhar.
– Mas...
– É que você desaparece tão rápido da minha memória.
– ...
– Teu cheiro, teu rosto.
– Haha.
–Tua risada também. Quero gravar isso em mim.
– E pra que?
– Pra te ter nos meus sonhos.
– Só pra isso?
– E pra ter certeza de que você é real.
– Eu pareço um sonho?
– As vezes parece, as vezes é.
– E se eu me tornasse real?
– Não. Eu gosto assim.
– Eu poderia...
– Por favor.
– Tudo bem.
– ...

II
– Eu pareço mais real agora?
– Bastante, mas...
– Não gostou do meu beijo?
– Não é isso.
– O que é então?
– É que eu te amo.
– Eu...
– Amo tanto que nunca quero tê-la pra mim.
– Como assim?
– Não há como perder o que não te pertence.
– Ah...

III
– Sou sua, agora?
– Acho que sim.
– Enfim te convenci.
– Como sempre.
– ...
– Tudo bem?
– Ainda acho que...
– Sssh! Você não vai me perder. Eu sou sua.

 IV
– O que é que está havendo com você?
– ...
– Você preferia antes, quando eu não te pertencia?
– Talvez.
– Você não me ama mais?
– Amo. Talvez mais do que antes.
– E?
– Esse é o problema.
– Como?
– O que você deseja pra quem você ama?
– Que esteja sempre ao meu lado.
– Isso não é amor, é egoísmo.
– Você quer dizer que eu não te amo?
– Você nunca entende o que eu digo.
– ...
– Nunca entende...
– O que é que você deseja pra mim, então?
– O melhor.
– E então?
– Eu não sou o melhor pra você.
– É claro que...
– Não sou. Me perdoa.

V
– Alô?
–Ginger? Eu preciso te ver.
– Quando?
– Você sabe aonde estou. Não demora.
– Mas...
– Eu te amo.

VI
– O que aconteceu aqui?
– Você é Ginger?
– Sim. Alguém pode me explicar...
– Eu sinto muito moça.
– Por favor, o que diabos está...
– Aqui, estava no bolso na calça dele.
 – Não é ele, não é. Por favor alguém me explica o que...
– Sinto muito mesmo moça, muito mesmo.
– Por favor!

Minha vida sempre foi sua e eu sempre te pertenci. Não há como perder o que nunca foi meu. Espero que dessa vez você entenda, porque você nunca entende...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um cinzeiro, uma xicara e um amor que nao deveria ser.


Ela desviou o olhar fingindo distrair-se com a xícara de café a sua frente. Gostaria de ter fugido, não pôde. Não que estivesse trancada, pelo contrario. A livraria visitada por ela diariamente durantes seus momentos de folga, era espaçosa e ventilada por enormes janelas, estilo antigo que permitiam-na observar toda a cidade de cima. Ver sem ser vista. Isso, foi tudo o que ela desejou quando sua bela Cat atravessou a entrada do local, trazendo consigo todo aquele perfume adocicado e seu sorriso perfeito. O mesmo sorriso que se desfez quando, finalmente, os verdes encontraram os azuis e as duas se afogaram numa imensidão de água. Mar e rio.

Cat gostaria de ter virado as costas e saído dali, mas, assim como as de Francesca, suas pernas postaram-se incapazes de fazer qualquer movimento que afastasse-as. Encaminhou-se sem entender muita coisa, até a pequena mesa redonda sob a qual repousavam um cinzeiro e uma xícara fumegante de café forte.

 - Posso? – Perguntou à Francesca, que apenas movimentou a cabeça quase imperceptivelmente.

Sentou-se devagar na pequena cadeira de madeira nobre e não atreveu-se a olhar novamente para os olhos azuis dela. Não era preciso. Sabia que eles estariam ansiosos por um pequeno momento de frieza e logo inundar-se-iam em lágrimas. 
Após um breve instante de silencio, uma voz doce cortou o ar. Tão grande quanto sua doçura, era a tristeza que emanava dela.

- Porque você se foi, Cat? – Pronunciar o nome dela despertava centenas de memórias em sua mente.
E como ela tinha lutado para adormece-las.

- Eu não estava pronta pra você Frankie, não te merecia.

- Eu achei que você tinha me conhecido bem demais e descoberto que não era nada do que esperava.

- Não! – interrompeu Cat – Você era perfeita Frankie, por isso eu fui embora. Foi um erro terrível achar que merecia algo de você.

- E isso importa? Importa se você merecia?
 
- Eu ... – Não importava. Agora ela sabia que não.

- É claro que não importa Cat. Você teve tudo o que quis de mim, pegou tudo o que conseguiu arrancar e isso é o que importa.

- Eu amava você Francesca. E eu ... – Cat não teve tempo de terminar.

- E eu não amava Cat? – Finalmente os olhos se renderam e encheram-se de densas lagrimas que mancharam sua maquiagem quase sempre impecável.

- Eu ainda te amo Frankie. – Ela sussurrou.
  
E finalmente atreveu-se a olhar nos olhos de Francesca e mais, a enxugar suas lágrimas com um toque carinhoso de suas mãos.
­ 
- Não deveria amar, mas amo. – completou Cat.

- Quando é que você vai aprender que nem tudo é como deveria ser?
 
- Quando você disser que me perdoa, mesmo que eu não mereça.

Francesca suspirou.

- Não Cat, eu ainda não estou pronta pra isso. Não sei se consigo.

Cat cerrou os olhos por alguns segundos e levantou-se em direção a porta. Para sua surpresa Frankie segurou seu braço tentando impedir que ela se fosse.

- Mas tem uma coisa, para a qual eu sempre estive pronta, mesmo que não devesse. - Anunciou ansiosa.

- E o que é?
 
- Amar você Cat.

Ela não deveria dizer isso depois de tudo o que acontecera, mas ora, nem tudo é como deveria ser. 
Cat sorriu tão intensamente, que beirou uma leve risada. Selou, enfim, os lábios de Francesca. A sua Francesca. Talvez ela ainda não se achasse pronta pra aquilo tudo, mas pela primeira vez na vida, Cat foi capaz de ignorar sua mente e ouvir seu coração.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Sobre uma noite que valeu a pena



– Andou bebendo mocinha? – Ele perguntou fazendo-a desviar seu olhar dos ladrilhos do passeio.

Ela sorriu e tentou fixar os olhos nele. Riu sozinha por não conseguir.

– Acho que isso é um sim. – Ele concluiu e mesmo bêbada, ela notou que ele tinha o mesmo tom de voz cheio de segundas intenções que ela odiava.
 
Ela soltou uma risada de desprezo e tirou um maço de cigarros da bolsa com dificuldade. Ele rapidamente retirou um isqueiro do bolso do casaco e acendeu-o.

– Quer que ... – Ela levou o cigarro até a chama antes que ele fizesse a oferta.

– Muito obrigada.
Ela tragou e uma cortina de fumaça se formou entre os dois.

– O que faz aqui, sozinha? – Ele insistiu, aproximando-se dela e notando que tinha pernas muito bonitas, mal escondidas pelos shorts curtos.

– O mesmo que você, querido. – Ela sorriu crente de que seria o bastante para expulsa-lo dali.

– E o que acha que eu estou fazendo aqui?

– Esperando por alguém, qualquer uma que faça valer sua noite.
 
– Acho que você pode fazer valer minha noite.   – Ele arriscou. Em vão.

– Eu acho que não.  – Ela perguntou tentando encontrar mais cerveja na garrafa que segurava.Vazia. 
A garrafa e a garota.

– Olhe pra mim, caindo de bêbada, fedendo a cigarro vagabundo e eu nem sei direito o que fiz lá dentro, quem é o cara que me agarrou e – Ela parecia ter dificuldades pra organizar as palavras –  esqueci o caminho de casa. – Completou soltando uma risada triste.

–  Esqueceu de acrescentar que está falando com um completo estranho. – Ele comentou sorrindo.

Ela riu.
 
– Ainda assim, acho que você pode animar minha noite,

– É com isso que você se preocupa não é? Sua noite. Se tiver alguma historia pra contar pra seus amigos, não vai precisar se preocupar com a garota que passou o dia todo ao lado do telefone, esperando ouvir sua voz. Não vai nem se importar em lembrar o nome dela.

– O que diabos você está ... – Ela não parou de falar.

– Você não se preocupa em fazer a noite de ninguém boa, não é? Vai chegar uma hora em que você vai perceber que não foi importante pra ninguém e que a única lembrança que vai restar, é de ter sido um safado maldito.
 
– Cale a boca! – Ele berrou e virou as costas, andando sem saber pra onde.

Precisava se esconder dela e das verdades que ela acabara de libertar. Era como se ela tivesse cuspido uma chuva daquelas florezinhas de pétalas leves como algodão, que se espalham com o vento e sempre acabam deixando um pedacinho em você, porque você não tem controle sobre elas. A não ser que fosse o vento. Ele não era. Era um safado maldito.

Parou de andar e respirou fundo, virando-se de volta pra porta da boate. Ela continuava lá, buscando cerveja em uma garrafa vazia e se escondendo em meio a uma cortina de fumaça.  Ele aproximou-se dela e tocou seu ombro magro, devagar.

– Obrigado.

Ela desviou seus olhos lentamente, sem entender.

– Por...?
 
– Por fazer minha noite valer a pena.

– Ah! – Ela exclamou e riu. – Pode me levar pra casa? – Perguntou surpreendendo-o.

– Tudo bem.

– Mas – ela olhou em volta – acho que não sei mais onde é.

Ele riu e ela percebeu o quão encantador ele era.

Terminaram a noite ali, sentados na calçada. Ele comprou-lhe uma garrafa de cerveja e o vazio dentro dela se preencheu. Nunca mais se viram depois daquela noite. Mas valeu a pena.