domingo, 5 de dezembro de 2010

Marianne


Marianne está sentada em sua cama, o colchão está sem lençol pois ela o retira e o derruba no chão todas as noites, sempre agitadas, quando ela vira de um lado para outro tentando afastar certos pensamentos.Ela segura o seu velho violão preto com a pintura descascada e cordas quase arrebentando com firmeza, os dedos rápidos tocam uma melodia simples que ela já decorou. È a oitava vez que toca aquela música, composta por ela, para Ela.

Está sozinha como quase sempre, porque Marianne nasceu com um buraco no peito. Ela não sabia disso até reler um certo livro que a dizia para continuar.

 – GO, Marianne!GO! – dizia o livro.

Marianne foi e descobriu que aquela sensação que a acompanhava desde que ela se dava por gente era um vazio que nascera junto com ela e que a fazia parecidíssima com o personagem do livro. O livro não dizia seu nome e Marianne gostava disso. Sem rótulos.Nenhum sequer.

O vazio fala alto em seu peito agora e a única pessoa que fora capaz de cura-lo, mesmo que temporariamente e sem intenção de faze-lo, está longe, ou talvez perto. Marianne não sabe aonde se esconde a garota de  lábios de fogo, a personagem principal de seu pequeno poema transformado em música – sim, aquela música que ela toca agora, pela nona vez. Isso só aumenta a distância entre elas. Oh sim! Elas. Um casal incomum esse meu, não?

Marianne concentra-se nas pequenas lembranças que guarda de Jacqueline e concentra-se também na música, ajuda-a a não se perder, mas ela sempre se perde. As lembranças mostram o rosto de Jacqueline, os olhos de ouro, a pele de veludo, as estrelas pelo corpo. A cada mudança de acorde o vazio parece tomar conta de Marianne e ela sente vontade de chorar. Não consegue. Ela está fadada a não chorar. Mesmo que doa uma dor insuportável, que sinta uma raiva incontrolável Marianne não derrama uma lágrima sequer.

– The damn don't cry. – “A maldição de não chorar”, sussurra Marianne lembrando-se de uma de suas músicas preferidas.

Larga o violão encima da cama, pega caneta e papel. Caminhando para o velho hábito de dialogar com suas palavras, quando lhe faltam seus amigos – se é que ela os tem.
È um monólogo pra qualquer outra pessoa, para Marianne não. Há duas pessoas ali, ou ao menos dois lados. Palavras pensadas versus palavras escritas.

Os dedos ágeis guiam a caneta já falha graças a seu uso constante, Marianne só usa aquela para seus escritos. Tem a ponta mastigada, fruto dos momentos de falta de inspiração ou nervosismo, quando as idéias não concordam em se aquietar. As palavras fluem e tem ritmo, como outrora Marianne sonhara.

Se antes lutava para não se perder, agora constrói o caminho que leva a isso. Suas palavras criam encruzilhadas, seus parágrafos becos sem saída, as frases formam labirintos. Marianne adora tudo isso.

Enquanto procura a saída, ela consegue se esquecer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário