terça-feira, 23 de novembro de 2010

Reencontro


Janine chega ao ponto de ônibus apressada, a respiração ofegante, mas a maquiagem e o cabelo ainda impecáveis. Deixa a mochila no chão para aliviar o peso das costas, sorri pelo ônibus ainda não ter passado e encosta-se na parede com um joelho dobrado, repetindo uma rotina de anos, esperando pelo ônibus azul e branco que surge na esquina e faz quase sempre o mesmo trajeto, levando quase sempre pessoas parecidas.Então ela desvia o olhar despreocupada para o lado e depara-se com uma visão que a arrepia e faz com que seu coração mude o ritmo imediatamente.

Ela poderia apenas olhar para o outro lado como sempre fazia quando alguém juntava-se a ela na espera do ônibus, mas aquele senhor de roupa social era o retrato perfeito de alguém que ela muito amava. Em um primeiro instante ela teve vontade de abraça-lo, de aproximar-se dele e perguntar como era do outro lado, de dizer que não sentia sua falta pois tinha consciência de que ele continuava ali, ao seu lado, quietinho, esperando o momento certo para aparecer e soltar aquela risada rouca e cansada, acompanhada por um típico canto de sabiá – seu pássaro preferido.

Ela apenas desviou o olhar para frente momentaneamente, e sem resistir a tentação olhava para o senhor inúmeras vezes e a cada olhada rápida, um detalhe revelava a semelhança. O corpo magro coberto por uma pele muito clara e enrugada, os dedos longos e finos, o pulso coberto pela camisa social azul – a sua cor preferida, talvez – o nariz grande fruto da descendência italiana, o cabelo acinzentado penteado pra trás e até a voz. A mesma voz confusa e muito baixa, seqüela do derrame que o levara a ficar por anos na cama e a falecer.Os olhos...Ah os olhos! Ela não arriscou-se a olhar para eles, pois se fossem do mesmo azul intenso dos olhos do avô, ela começaria a chorar ali mesmo.

– Não passou ainda não né? – disse com voz confusa o senhor, tais palavras não seriam entendidas por pessoas comuns, mas Janine aprendera a entender cada palavra e cada gesto do avô, idênticos aos do senhor.

– Não, ainda não. – respondeu com dificuldade, olhando sorrindo para o senhor.

– Eu vou para o Pronto Socorro, moro pertinho de lá.Fui buscar uns remédios para a minha filha – disse ele, a garota apenas tentou dizer alguma coisa mas não obteve sucesso.

O ônibus finalmente virou a esquina, Janine olhou para o senhor que se aproximava da calçada:

– O senhor chegou bem na hora! – disse ela baixinho, ele riu. A mesma doce e rouca risada do avô, o coração dela apertou seu peito, algumas pequenas lagrimas brotaram de seus olhos verdes mas ela as enxugou e subiu no ônibus sem olhar pra trás.

Um final inventado

– O senhor se parece muito com meu avô.Muito. – ela disse finalmente cedendo a vontade, ele riu, lagrimas brotaram dos olhos dela e ela subiu no ônibus assim mesmo.
E fez seu trajeto observando as mesmas paisagens rotineiras, distraída, ao invés de escrever textos nas paginas de sua mente.

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