quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Memórias


Era um salão muito grande, as paredes cobertas de tapeçarias que retratavam uma vida muito rica e nobre, o chão coberto por um carpete azul marinho, muito antigo mas ainda impecável.Cabelos em cachos vermelhos como fogo caiam até as costas da pianista que movia os dedos devagar, dando vida a uma melodia simples, que seria apenas um conjunto de notas espaçadas sem o som do violino manejado com destreza pelo homem magro.Tinha olhos azuis muito vivos, pele morena queimada de sol e cabelos loiros e lisos penteados pra trás.Os olhos se fechavam quando a melodia chegava ao auge e ele podia enxergar as notas a sua frente, a partitura dançando ao som de sua concretização.Sorria, mostrando dentes perfeitamente enfileirados e lábios finos, trêmulos, tamanha sua concentração.

Os dois jovens ensaiavam para o baile que ocorreria naquela noite.Logo eles não estariam mais sozinhos e a musica não seria destaque, perderia seu espaço para os decotes preenchidos por seios fartos, vestidos brilhantes de cores vivas e homens com seus ternos finos falando de negócios.Os dois, Ana e Romeu, faziam questão de fazer contato com a musica antes das apresentações, de estar sozinhos para que quando o salão se enchesse, eles pudessem se acalmar, fechando os olhos e pensando nas lembranças daquele momento em que eram somente eles e a musica.
Por um momento em especial, quando as músicas já estavam decoradas e eles já não se importavam com nada, além da melodia em seus ouvidos e o baile das notas musicais, os dois fecharam os olhos ao mesmo tempo e tiveram uma mesma visão.

As cores do salão pareciam ainda mais vivas e o tapete ainda mais novo,as faces na tapeçaria, fitavam um casal muito belo que dançava sozinho, indo de um lado para o outro de olhos fechados.Um pequeno grupo de músicos tocava a mesma música que eles tocavam quando a visão se iniciara.O homem, vestido com terno escuro,azul como seus olhos, porém descalço ,tinha as mãos repousadas sobre a saia armada da mulher, de tecido vermelho vibrante, assim como seus cabelos.Os dois sorriam e pareciam ser um mesmo ser, tamanha a precisão de seus movimentos, sempre compassados, o que fazia parecer que até mesmo seus corações batiam no mesmo ritmo.

Parecia não ser uma ocasião especial, o casal dançava como se aquela, fosse a sua maneira de expressar o amor.No exato momento em que a música terminou, eles abriram os olhos, uniram os lábios, Ana e Romeu abriram os olhos e se entreolharam como se aquela visão, fosse uma lembrança.Ana poderia dizer exatamente qual era o cheiro do homem de olhos azuis e Romeu, sabia exatamente a textura da pele da ruiva.Era como se eles já tivessem vivido aquilo tudo e sem saber porque, sentiam uma dor ao lembrar-se de tudo.Sabiam que aquele casal, não teria um final feliz.

Ana buscou em suas lembranças, na lembrança de sua alma e pode ver aquela mesma mulher, ainda viva, outrora de vestido vermelho, vestida de preto, naquele mesmo salão.Sozinha, ela sussurrava a mesma melodia que dançara com seu amado, girava pelo salão, como se ele ainda estivesse ali.E parecia mesmo que estava, seu cheiro, seu calor ainda pareciam acolhe-la e guia-la pelo salão.
Romeu viu os olhos azuis se fecharem lentamente e uma taça de vinho caindo com um tilintar agudo e mortal, no chão de madeira lustrada.Viu também o sorriso do inimigo que o envenenara e sua amada dançando sozinha no velho salão de bailes.Viu a música se calando e dança tendo um fim.

Depois de voltarem a realidade, sorriram satisfeitos por terem novamente, dado vida a música que unira o casal, por mais de uma vez como eles tinham acabado de descobrir.

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