terça-feira, 16 de novembro de 2010

Como um beija flor...


Cansado de concluir sozinho o motivo de tal sorriso constantemente estampado na face da garota de aspecto inocente, com seus cachos de bronze e pele de porcelana, decidiu sentar-se ao seu lado, no velho e típico banco de praça, no qual ela se acomodava diariamente, tirando os dias de chuva, quando ela se escondia nas marquises e perguntar:

– Porque sorri, menina?

– Por que estou feliz, moço.

– Feliz porque?

– Gostar, gostar muito de alguém.

– Ah não! Se é por gostar de alguém é alegria, que passa rápido como beija flor assustado.

– Tão rápido que a gente nem consegue lembrar?

– Desse jeitinho.

– E que deixa a gente pensando que devia ter feito diferente, chegado mais devagar pra não assustar o bichinho.

– Sabe mais do que eu imaginei, menina.

– Dói isso seu moço, esse achar que se fizesse diferente, o beija flor podia tá aqui ó, na palma da mão.

– È, podia. Agora pense que nosso beija flor não é mais alegria, agora é esse alguém de quem tu gostas. E se ele for como tu?

– Como eu, como?

– Se ele achar que pode lhe assustar se chegar muito perto?

– Como pode, um beija flor, tão lindo, tão inofensivo me assustar?

– E como pode, menina tão bonita, tão sabida de sentimentos como tu, assustá-lo?

– Não sei não moço. Se eu chegar muito perto, olhar muito, sorrir demais, ele pode achar que eu quero ele pra mim. Pode achar que eu quero tirar dele as flores, os perfumes e prender ele na gaiola.

–  E tu não queres isso não, menina?

– Claro que não moço! Quero só ter ele por perto, pra ver direitinho, sentir o macio das penas, ver os pequenos olhinhos e depois ele pode ir, que eu vou ficar lá, esperando ele voltar com uma flor no bico, de presente pra mim.

Levantou-se sem dizer nada com um traço úmido no rosto pálido que partira de seus olhos tristes. Sorriu para a garota no banco e deixou-a ali, esperando por seu beija flor com o coração embebido em mel.

Nenhum comentário:

Postar um comentário